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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Cada um tem a letra que merece'

Por Mary Arantes , 21/10/2019 às 17:02
atualizado em: 21/10/2019 às 17:11

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Foto: Pixabay
Pixabay

O único elogio que recebi para minha letra foi que ela parecia com hieróglifo. O que achei que tinha sido um elogio durou pouco, até chegar em casa, descobrir o significado da palavra e perceber que tinha sido apenas uma constatação, quase um xingamento.

É que meu N, se parece muito com o M, ambos são quase um traço, apenas um mais compridinho que o outro. O U, que já se parece muito com o V, dependendo da minha má vontade em escrever, ficam iguais, principalmente quando tiro a perninha do U. O S então coitado, é saia justa. Conforme a letra que vem antes ou depois, ele se altera. É como se elas o puxassem para os lados e ele sempre ficasse esticado como um elástico.

Se quero matar meu marido de raiva, é quando ele me pergunta“o que foi 'isto' que você escreveu?”. E depois de tentar ler, respondo: “não sei mais”. Será que sou a única pessoa no mundo que não sabe decifrar o que escreveu? Quando vou a palestras e escrevo um bloco inteiro sobre o assunto, ou chego em casa e passo para o computador correndo, ou aquele bloco ficará lá para sempre, na gaveta dos criptogramas indecifráveis.

Dependendo da minha raiva, letra tem isso, às vezes sai raivosa, o U e os dois erres, podem sair como se fossem a mesma letra, com dois morrinhos ou em forma de urro mesmo.

Toda vez que criava uma peça de bijuteria, ela era por mim batizada. A confusão por parte de quem cadastrava a planilha no computador era tanta que quando eu ia ler o nome de batismo que eu tinha dado à peça me assustava. A decodificação tinha sido outra. Um brinco de forma estrelada, saia de forma estralada. Um colar longilíneo, saia com nome longínquo. Um espalhafatoso, poderia ser chamado de espantoso. E era aí que morava o perigo, o nome poderia encalhar a criação. Imagine vocês, se tivesse dado nome à um anel de encantado e ela tivesse cadastrado o bendito de entalado, desses que a gente põe no dedo e não sai de jeito nenhum, desses que encalacram, entalam na barriga que o dedo tem. As pessoas já comprariam o produto, sabendo o defeito de fábrica.

Isso sem contar dos recados. Uma manhã deixei um bilhete pra Marli, que na época trabalhava comigo, que à tardinha um senhor iria entregar um cachepô, que eu havia comprado. A palavra cachepô somada à minha letra para lá de ruim, resultou em um recado indecifrável. Só sei que até o final da tarde ela não teve dúvidas de que deveria esperar um senhor que lhe entregaria um cachecol. Só fiquei sabendo de tudo, mais tarde, da gargalhada que ela deu ao receber, o que nem sabia ser o tal do cachepô. E saiu com esta: Custava ela falar que era um pote de pôr planta?! 

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